A profunda essência do signo de Virgem

Sempre digo que Virgem é um signo complexo e muitas vezes injustiçado porque é incompreendido. Portanto, agora que estamos em plena temporada de Virgem, vou dar uma pausa na obrigatória faxina, baixar o fogo no arroz integral e aproveitar o finzinho do inverno para desmistificar a Virgem tão temida. O papo é meio profundo, ótimo para uma quinta-feira, dia dedicado a Júpiter, que preside estudos superiores. Vamos lá!

VirgemZodiac-SalvadorDali
Três versões do signo de Virgem nas séries Zodíaco, de Salvador Dalí (Montagem/ Berliques e Berloques)

“Esse pessoal de Virgem é tão pernóstico”, “São todos uns chatos”, “Gente sem humor”, “Tudo pudico e santinho do pau oco”, são apenas algumas das frases que ouço a respeito deste signo fascinante que dá o tom do final de inverno. As pessoas nascidas sob esta influência muitas vezes são resumidas a intelectuais afetados, críticos implacáveis e insatisfeitos eternos. Sua essência, porém, é negligenciada.

Já falei algumas vezes no blog e muitas para os clientes virginianos de nascimento e coração sobre a relação entre Virgem e sexualidade. Às vezes as pessoas relacionam a pureza de Virgem a uma castidade ou até mesmo certa repugnância pelo sexo, essa coisa que pode se tornar tão impura, extrema e bagunçada. Aceito que Virgem não seja fã da sujeira e da bagunça, mas os virginianos gostam de um chamego tanto quanto qualquer outro signo.

Talvez esta noção errada seja porque Virgem tem a imagem da Donzela (em maiúscula porque é um conceito cósmico, um ser mítico). A pureza desta Donzela não é de natureza sexual, mas cósmica. Entre a mitologia grega, as chamadas Deusas Virgens do Olimpo são aquelas que não são definidas por sua relação com homens. São três: Atenas, Ártemis e Héstia. As outras três deusas olímpicas são intrinsecamente definidas pela relação passada ou atual com um homem. Hera é a Esposa, Deméter é a Mãe e Afrodite é a Amante. A psicóloga que estudou essa abordagem das deusas, Jean Shinoda Bolen, considerava que toda mulher vive um aspecto de uma deusa virgem quando “ela não pertence e não tem atributos pertinentes a homens, ou seja, ela não é afetada pela necessidade de um homem ou pela necessidade de ser aprovada por ele; ela existe completamente separada dele, em seu próprio direito”.

Virgem virou a Virgem Mãe da cristandade

A Virgem do signo, para os estudiosos da antroposofia, “é uma imagem terrestre da Alma cósmica, a Sofia (sabedoria), e ela é considerada virgem porque corresponde a um aspecto de nossa alma que permanece intocada pelas necessidades terrestres, e pode então acolher e gerar o Espírito individualizado em nós. Isto significa um estado de entrega e doação constantes, de cortesia e polidez”, escreve Edna Andrade no site antroposofy.com.br. Estamos falando aqui de uma Donzela muito antiga, aquela estudada pelos assírios e babilônios. Com o advento do Cristianismo, porém, o signo sofreu uma mudança em seus atributos.

Na Era Cristã, Virgem virou A Virgem, aquela que esconde seus tesouros até o momento certo, e só então revela o que se esconde por baixo de seus trajes e véus vaporosos. A simbologia antiga de Virgem é a mulher jovem com uma espiga de trigo (ou outro grão) nas mãos, para desespero do povo contra glúten. Portanto, ela não é uma deusa estéril e casta, mas sim uma deusa de fertilidade, uma Mãe Sagrada, que supervisiona e guarda a generosidade da Natureza. Assim, na Era Cristã, ela é a Virgem Mãe, que guarda o filho, o Cristo.

Não é à toa que o signo oposto a Virgem, no Zodíaco, é Peixes. Das águas de Peixes, do mar (mare, em latim), vem Maria Madre (mãe), que carrega seu peixe sagrado (peixe é o símbolo de Cristo), capaz de nutrir o mundo. Um dos maiores e mais profundos dogmas da Igreja Católica é o mistério da concepção e nascimento virginal de Jesus. Os esotéricos, porém, entendem que este mistério é mais antigo que o catolicismo ou o cristianismo. Ele está ancorado no antigo ensinamento dos nossos antepassados pré-cristãos. Para eles, não importa o nosso gênero, cada um de nós pode dar à luz a uma Criança Interior de Amor Infinito.

Purificação constante e refinamento da consciência

Neste sentido profundo (e até oculto), Virgem representa o processo de purificação e seleção para libertar de nossa personalidade os obstáculos ao surgimento deste Eu Superior puro e excelso – a Alma. O signo nos fala dos métodos e técnicas para alcançarmos o auto refinamento e a limpeza interior total. Pessoas nascidas em Virgem e todos nós também (pois todos temos algo no mapa astral em Virgem) estamos sempre em busca de autoaperfeiçoamento para descobrirmos a nós mesmos – é o nosso self burilado e aprimorado. Então vamos a cursos, palestras, workshops e simpósios em busca de nós mesmos, não só para nos encontrarmos, mas para nos purificarmos e encontrarmos um Ser Cósmico que só nós poderemos revelar.

Vejam bem este contexto. Agora vejam bem o nosso mundo. Não vivemos em planos exaltados, em esferas superiores, ao menos por enquanto. Por isso talvez o nativo de Virgem, que conhece estes processos e está lutando para chegar à perfeição, tenha esta reputação de pessoa reclamona, crítica e perfeccionista. O virginiano sabe que pode produzir uma “versão melhorada” de si mesmo. E não é só ele que precisa de melhora – Virgem acha que tudo e todos poderiam usar uma revisão. Mas essas reclamações superficiais, as infindáveis reclamações contra os menores detalhes da vida, erradas, esses constantes pronunciamentos de um ritmo fora de sincronia são todos representativos de uma realidade maior e mais profunda. Esta é a necessidade de Virgem de lembrar a si mesma e a todos os outros que a vida pode ser melhor, que o mundo pode ser um lugar mais perfeito e que todos nós podemos procurar e encontrar uma maneira de melhorar nossas vidas e as vidas das pessoas ao redor.

Daí a preocupação de Virgem com a saúde perfeita, com o trabalho bem executado, com os detalhes de tudo embutido nisso. Com seu processo de escolher e selecionar, Virgem também joga fora o grão ruim, o comportamento nocivo, as futilidades. Existe aí um atributo virginiano divino: a síntese. Ensinamentos muito antigos garantem que é na síntese que a alma desdobra sua realidade, daí a natureza divina deste atributo. Reduzir e simplificar processos e coisas requer liberar o menor e abraçar o maior, o mais importante. Começa aí o ensinamento para abandonarmos o que já não é mais necessário e abraçar a realidade, substituir o excessivo e primitivo pelo refinado. É quando podemos encontrar o Centro de Amor e de Sabedoria dentro de nós mesmos.

Passou da hora de Virgem ter mais respeito. Não é o signo do pessoal cri-cri. Se você ainda pensa assim, é melhor já ir revendo seus conceitos.

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2 thoughts on “A profunda essência do signo de Virgem

  1. Adoro os seus posts de análise! Ainda mais quando vêm embalados de contexto histórico/teológico!
    Vou aproveitar o espaço para perguntar: Você acha que um dia a Astrologia voltará a ser respeitada academicamente?

    Abraços

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    1. Obrigada, amigo. Sua pergunta me instiga a pensar num futuro em que a Academia se libertará das amarras cartesianas e abraçará uma abordagem holística. Isaac Newton, pai da Física Clássica, era amarradão na alquimia. Kepler, apontado como o cara que separou astronomia e astrologia, tinha a interpretação de mapa astral como ganha-pão. Na minha modesta opinião, só uma ciência holística poderá colocar a astrologia numa posição distinta da atual. Tenho dúvidas de que serei testemunha disso nesta encarnação. Mas agradeço a pergunta pela oportunidade de reflexão. Cuide-se bem.

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