Era noite de São João

Tradicionalmente, a noite de 23 de junho no Brasil é a noite consagrada à fogueira de São João. É nessa noite que tem quadrilha, dança, pipoca, casamento na roça e forró. Não vejo em Santa Catarina a importância que essa festa tem em outras partes do Brasil, mas essa não é a questão. A tradição permanece também aqui, mesmo que as pessoas nem sempre estejam ligadas à tradição ou a suas origens. Afinal, é São João de quê, mesmo?

The Baptism of Christ by Pietro Perugino1483
“O batismo de Cristo”, de Pietro Perugino (1483)

Os santos de nome João mais famosos são São João Batista e São João Evangelista. O primeiro, primo de Jesus, é o de longe o mais famoso: ele foi um grande profeta no seu tempo, anunciando a vinda do Messias prometido. É chamado de Batista não só por fazer batismos, mas por ter feito o batismo do primo Jesus. Cristãos conhecem a história que João ficou todo constrangido por batizar seu Mestre, dizia que não era digno, mas Jesus insistiu e foi batizado por seu primo. Hoje João Batista tem seu nome reverenciado (por motivos diversos) pelo Islã, pela Umbanda, pelo Kardecismo, pela Maçonaria.

Por sua vez, São João Evangelista também não é fraco. Ele não só é o autor do evangelho que leva seu nome, mas também é a ele atribuído o Livro das Revelações, que todo mundo chama de Apocalipse. Ele também é chamado de João de Patmos, porque foi nessa ilha grega que recebeu as revelações divinas sobre o fim do mundo. Tem estudiosos jurando que o autor do Apocalipse é um terceiro João, mas não é uma questão fechada.

Parêntesis: vocês estão sabendo que a palavra “apocalipse” é grega e quer dizer revelação, né? Vocês entendem que ela não significa fim do mundo, não entendem? É só para esclarecer. Então vamos voltar aos joões.

A data de 24 de junho é a do nascimento de São João Batista, e fica próxima ao Solstício de Câncer. O nascimento de São João Evangelista é em 27 de dezembro, próxima a outro solstício, o de Capricórnio. Ambos solstícios (de verão no Hemisfério Sul e de inverno no Hemisfério Norte e vice-versa) têm grande significado; tanto é assim que os maçons costumam dar posse a seus Mestres e Grão-mestres nessas datas. São João é considerado o patrono dessa Ordem.

A fogueira de São João, que tanto encanta crianças e adultos, representa um pedido ao Sol para que não abandone a humanidade no dia mais curto do ano. O simbólico Sol da consciência e da energia masculina yang, clara e concreta, está mais fraco. A humanidade tem medo de seu inconsciente, de seu lado feminino ying, escuro e incontrolável. No escuro vivem os demônios, a magia e tudo aquilo que se dissolve no Sol; então é hora de iluminar a noite escura e banir as trevas. Quem pula a fogueira (eu me queimei fazendo isso quando era criança) ganha proteção do santo contra os ataques das trevas.

O João reverenciado em junho/julho traz doces, pipocas, bolos gostosos e os frutos da colheita da roça, das pessoas simples e humildes, tementes à divindade. Antes de ser batista, São João é um profeta, e profetas raramente trazem boas notícias. Dá para pensar que é por isso que as comidas são gostosas: para açucarar os tempos que virão e dar energia e coragem para atravessar o inverno, que está apenas começando.

Bom São João a todos.

PS – Antes que eu me esqueça, deixem-me esclarecer: a Maçonaria não tem como patrono nem São João Batista nem São João Evangelista. O escolhido foi São João Esmoler (do grego eleêmosyne, “piedade, compaixão”, que também deu origem à palavra esmola). Ele também é conhecido como São João de Jerusalém, um príncipe cipriota nascido no ano 556, conhecido por seus trabalhos de beneficência. Ele entrou numa ordem beneditina e ficou famoso por cuidar de visitantes que iam à Terra Santa. Isso, claro, antes das Cruzadas, porque depois delas, visitar a Terra Santa virou uma verdadeira guerra.

Alguns séculos mais tarde, essa ordem beneditina transformou-se na Ordem de Malta (oficialmente Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, também conhecida por Ordem do Hospital, Ordem de S. João de Jerusalém, Ordem de S. João de Rodes, etc.). Em 1099, foi criada, em Jerusalém, a Ordem dos Templários Hospitaleiros, influenciada na história e ensinamentos do monge beneditino (já canonizado) São João de Jerusalém, ou São João Esmoler. Foi dessa inspiração que nasceu a Maçonaria. As informações públicas estão no site maçonaria.net.

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