Quem tem medo do inferno astral?

Uma pessoa que usa a expressão “inferno astral” normalmente se refere a um período ruim de sua vida. Ela sente como se os astros conspirassem contra ela durante aquela fase horrível, em que nada parece dar certo. Todo mundo já passou por fases assim. Realmente, são fases horríveis. Mas por favor, não culpem os astros. É que esse tal de inferno astral não existe. Para explicar isso, preciso de um post longo.

Constantine1
Representação do inferno no filme Constantine (2005) (Divulgação Warner Bros)

Isso é muito sério. Inferno astral não existe. Não tem uma única menção na literatura. Nem mesmo em obras de astrologia clássicas e antigas, naquela época fatalista em que a astrologia era usada para prever se uma guerra traria vitória e riqueza, ou se o rei seria amado por seus súditos: não existe qualquer referência a esse tal de inferno astral. É mais fácil existir Papai Noel no Natal do que inferno astral em qualquer época do ano. Simples assim: não existe esta entidade que apavora muito cristão por aí. De Claudio Ptolomeu a Susan Miller, a astrologia séria não reconhece o inferno astral. Mas daí a dizer que não temos fases ruins é ir longe demais. Vamos examinar isso.

Todos os planetas têm ciclos, mesmos aqueles que os humanos não acompanham, como Plutão ou Netuno – órbitas que levam cem anos ou mais, bem além de nossa expectativa média de vida. Eventualmente, haverá ciclos ruins para os indivíduos, de acordo com os trânsitos, os movimentos planetários, os momentos da vida de cada um e as decisões que tomamos na vida. As fases ruins passam, como tudo debaixo do Sol.

Ainda assim, há astrólogos que trabalham com o conceito dos 30 dias anteriores ao aniversário da pessoa serem um período difícil. Não concordo com a afirmação, mas posso ver de onde ela vem. Vamos ver se dá para explicar sem recorrer ao “astrologuês”.

Cada vez que fazemos aniversário, passamos de volta ao exato local onde o Sol estava quando nascemos. É uma volta em torno do Sol, e o aniversário dá início ao nosso novo ciclo solar. É o nosso ano novo pessoal. Mas, no mês anterior ao aniversário, o Sol está dando fim a essa etapa, iniciando uma transição. E toda transição sempre implica mudanças, incertezas e instabilidade.

A conspiração da Casa 12

Nosso aniversário corresponde à casa 1 do nosso mapa astral, e os 30 dias (mais ou menos) antes disso correspondem à casa 12. É uma casa misteriosa, regida por Peixes e Netuno. Lembram que os assuntos de Peixes são embaçados, difusos, fora de foco? Pois é: alguns astrólogos dizem que antes de nosso aniversário estamos vivenciando os assuntos da casa 12. Alguns deles são bem pesados.

O grande astrólogo Dane Rhudyar sempre disse que não existem casas ruins, mas nem ele negou os desafios propostos pela 12. É que nada nela está claro. Mas ela contém as nossas forças e fraquezas desconhecidas ou ocultas. É a casa dos segredos e daquilo que gostaríamos de esconder, e também dos inimigos ocultos. Não pode ser resumida à casa do carma. A astrologia cármica faz um bicho-papão da casa 12, o que acho injusto. Não existe uma conspiração na Casa 12.

Nessa casa, estão as coisas e os segredos dos outros, a consciência interior e a mente subconsciente. Mostra tristeza, sofrimento, limitações, obstáculos, segredos, isolamento, frustração. Indica lugares de confinamento, prisões, hospitais, instituições mentais. Ilumina nossas restrições, inibições, exílio, inimigos secretos, perigos ocultos, autodestruição e casos clandestinos. É onde estão as dívidas espirituais a serem pagas, a caridade, simpatia e bem-estar público. Muitas vezes é chamada a lixeira do horóscopo por o local onde escondemos os desafios e dor, ou seja, as dificuldades que nos recusamos a admitir.

Tomada de decisão

Netuno, Peixes, e a Casa 12 manifestam-se como uma fonte dos sonhos interiores, o lar do inconsciente coletivo, o refúgio preferido da imaginação. É uma casa de intuição, de compaixão e de transcendência espiritual.  Numa perspectiva mais condicionante, a Casa 12 também pode ser entendido como situações que nos obrigam a parar para refletir, como uma baixa prolongada, uma situação de inatividade profissional ou uma doença.

Quando meu Plutão pessoal passou meio enviesado pela minha casa 12, corri risco de vida. Eu fiquei hospitalizada por mais de 50 dias e tive um processo de recuperação que durou oito meses. Afastada do trabalho, portadora de uma doença crônica fresquinha (mais um assunto “punk” da casa 12), fui obrigada a repensar meu estilo de vida. Ainda estou colhendo frutos e ações das decisões tomadas naquela ocasião, há mais de seis anos.

A Casa 12 também representa a preocupação com os problemas da sociedade, todas as crises e doenças da humanidade, pelo que é também designada como a casa dos mártires ou “salvadores” do mundo. Ela tem relação com sacrifícios, doenças, sofrimentos e a doação que devemos fazer aos outros. É a identidade do cristianismo e das grandes religiões que pregam a dissolução do self em favor do todo.

A probabilidade de nesta fase acontecerem fatalidades na vida de uma pessoa é grande, já que o Sol está sobre as questões dessa casa. Mas isso não pode ser generalizado. Primeiro, porque essas ações não duram o mês inteiro. Depois porque nem sempre um aspecto negativo se forma precisamente nessa época. E nem sempre as coisas ruins acontecem só antes do aniversário.

Agora vamos combinar uma coisa: como é que o Zodíaco manipula todos os desafios do ano para  eles acontecerem todos juntos numa mesma época? Eu sei que às vezes a gente tem essa impressão, porque é azar demais e tudo parece acontecer na mesma hora, mas acredite: isso não existe. É fácil culparmos uma entidade por tudo de ruim, não é? Talvez seja mais sadio lembrarmos que isso não significa uma fase de azar, mas sim um momento de reflexão e avaliação para o início de um novo ciclo. Os que estiverem passando por esse momento podem relaxar: comemorem seu aniversário, preparem-se para viver as novidades que o futuro trouxer.

Se você quiser  identificar os trânsitos negativos, é aconselhável observar os trânsitos planetários ativos no seu mapa astral, e lembre-se: eles vão variar com o passar dos anos, e cada ano é diferente do outro. Não existe inferno astral, paraíso astral nem purgatório astral. Todos nós temos nossas cruzes para carregar, e ninguém ganha uma fatia maior do que pode carregar. Tudo passa, e amanhã vai ser outro dia.

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2 thoughts on “Quem tem medo do inferno astral?

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